segunda-feira, 8 de junho de 2015

Eu acho é pouco.

A cruz é um instrumento de tortura milenar. Uma representação máxima da dor, sofrimento, flagelo e suplício. A cruz também é um símbolo de ódio, ignorância e crueldade. Um símbolo da frieza desumana dos que crucificam e da humilhação taxativa do crucificado.

A cruz é também e principalmente o símbolo mundial do cristianismo. Uma vertente religiosa cuja doutrina foca o ato de amor de um deus que, para redimir os pecados de seu povo, submeteu seu filho ao sacrifício máximo da morte e à humilhação pela cruz. Esse filho viveu pregando a compaixão, o amor e o respeito. Criou dez mandamentos para a sua vindoura igreja e para simplificar as coisas resumiu todos eles em dois:

  1.  Amar a deus sobre todas as coisas.
  2. Amar ao próximo como a si mesmo.
Amar ao deus que, POR AMOR, dá a vida de seu próprio filho pelo pecado dos outros e amar a estes outros como se ama a si mesmo... Para mim, na minha humilde interpretação, algo que diz que o  AMOR é o principal ensinamento de todos e deve vir acima de tudo. Ou deveria ser.

No domingo passado a atriz Viviany Beleboni fez uma performance artística durante a parada do orgulho LGBT em São Paulo. A performance consistia de uma representação da crucificação de Jesus. As letras INRI (Iēsus Nazarēnus, Rēx Iūdaeōrum – Jesus Narazeno Rei dos Judeus) supostamente presentes na placa da crucificação original de Jesus foram substituídas pelo apelo “BASTA DE HOMOFOBIA COM GLBTs”. Uma metáfora clara para o suplício que essas pessoas sofrem na sociedade em que vivemos. Pela constante humilhação, dor e sofrimento que podem resultar em assassinatos, como o da amiga da atriz baleada com quatro tiros na cidade de Porto Alegre em um crime de transfobia.

Qualquer que seja o cristão que olhe para a imagem dessa mulher trans emulando a crucificação de Jesus Cristo, coberta de sangue da cabeça aos pés, com um clamor de BASTA sobre a cabeça e não consiga ver neste protesto um pedido gritante de SOCORRO não deveria ser digno de se considerar cristão verdadeiro.

Justamente aqueles de deveriam amar ao deus, que perdoa a tudo e a todos, sobre todas as coisas e ao próximo como amam a si mesmos são os primeiros a levantar os dedos em riste, atirar pedras, condenar ao fogo do inferno, ameaçar de morte, agredir e humilhar.

Para estas pessoas o que incomoda aqui não é o uso do seu símbolo religioso e a apropriação deste. O jogador de futebol Neymar pode virar mártir crucificado na capa da revista Placar sem iniciar nenhum levante popular. Não. O que incomoda aqui é que Viviany é uma mulher trans, um ser estranho, diferente, uma “aberração” para esse povo cheio de ódio que esqueceu que a ÚNICA missão conferida por seu deus era amar. Um povo cheio de ignorância que não consegue perceber que com sua agressão cotidiana incentiva e justifica formas de agressão piores que culminam em assassinatos. Mortes horrendas que se assemelham de verdade à morte pela cruz. Mortes irreversíveis: eu nunca ouvi falar de uma travesti que ressuscitou ao terceiro dia para voltar aos braços de sua mãe, família e amigos.

Essa gente cheia de ódio precisa acordar para perceber que respeito, tolerância, compaixão e amor são a chave para um mundo melhor; e que o discurso que elas pregam é de desrespeito, aversão, ignorância e ódio. ÓDIO. E para vencer esse ódio é preciso SIM tocar no ponto mais dolorido da questão. Essa gente precisa rever o sacrifício de seu deus na pele de uma mulher trans SIM, mais e mais vezes. Até que um dia, quem sabe, consiga enxergar no pedido de socorro de uma atriz coberta de sangue falso o sofrimento rotineiro das milhares de travestis e mulheres trans que, quando tem sorte, não sangram de verdade.
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terça-feira, 2 de junho de 2015

Eles não desejam mal a quase ninguém.


Amigas gays, sapatas, total flex, assexuadas e representantes amadas de todos os espectros possíveis da fluida e linda sexualidade humana, venho com esse texto perfumado pelas sete fragrâncias da Egeo, do boticário, lembrar uma coisa importante: somos, sempre fomos e sempre seremos minoria.

Falei o óbvio? Talvez. Mas as vezes é bom repetir pra que não nos esqueçamos. O comercial da Boticário para o dia dos namorados é lindo, fofo, meigo e representativo. E isso é ótimo! Batamos palmas pela coragem dos representantes da marca de se posicionar de forma firme, acertaram em cheio. Viva! Tomara que isso incentive outras marcas a se posicionarem de forma semelhante. Mas resolvi escrever esse textinho para falar de outro ponto. Ou outros pontos:

A Rejeição do comercial e o boicote da marca não são um absurdo tão grande assim, muito menos uma surpresa.

Nosso país ainda é aquele que tem o maior registro de crimes homofóbicos NO MUNDO TODO. Seguido por México e Estados Unidos.  Sete em cada dez homossexuais já sofreram alguma forma de agressão (e fizeram denúncia, porque se formos contar todas as formas de agressão não denunciadas sabemos que esse número pula pra 10/10 né?). A representatividade de homossexuais na televisão é ridícula e pouco expressiva. O casamento civil é uma conquista extremamente recente e sofrida. Enfim, o cenário é ruim. A coisa está feia, e a gente se esquece disso. E nos esquecemos por quê?

A circulação de informação pela internet nos coloca dentro de uma bolha de conforto.

Para além do fato de que nos cercamos de pessoas que nos fazem bem, e por isso a maioria dos nossos amigos são gays, ou pessoas que nos aceitam e fazem o máximo pra se livrar de seus preconceitos, os novos meios de acesso à informação tendem a nos deixar monotemáticos. O algoritmo do feed do facebook faz com que só vejamos publicações de pessoas que compartilham dos nossos interesses. Ou seja: por mais que você tenha vários amigos babacas na sua lista repudiando um comercial como esse e sendo escrotos em níveis astrológicos é muito improvável que o chorôrô da família tradicional vá aparecer na sua timeline. Isso te dá a ilusão de que todo mundo é legal, mente aberta e nada preconceituoso. Mas cuidadinho, amiguinho. O mundo não é tão cor de rosa quanto a sua timeline.

Precisamos voltar a fazer barulho, voltar a sermos ativistas.

Somos minoria e sempre seremos. O importante é que sejamos uma minoria respeitada, representada e não negligenciada. Para isso é importante que sejamos vistos, ouvidos e lembrados a cada dia. Não podemos nos acomodar e nos sentirmos confortáveis com a vidinha mais ou menos que conquistamos até então. Vivemos hoje em um mundo bem menos repressivo do que a vinte anos atrás, mas não poder demonstrar afeto em público sem ouvir uma buzina de carro, um assovio impertinente ou qualquer forma de assédio ainda é repugnante e absurdo. E lutar pelo fim disso é, acreditem se quiser, muito mais difícil que lutar pelo direito ao casamento civil ou pela criminalização da homofobia.

Ativismo também é feito no dia a dia, no cotidiano.

Participar de passeatas, abaixo assinados e petições online são formas válidas de luta pra tentar mudar um pouquinho esse mundinho todo errado. Mas a maioria esmagadora das pessoas ainda nos vê como aberrações, como “desviados” ou anormais. Da próxima vez que pegar um ônibus olhe bem para cada pessoinha que está fazendo uso desse transporte com você e tente imaginar qual a opinião dela sobre a sua sexualidade (isso se eles não estiverem demonstrando essa opinião de forma clara com torcidas de nariz e olhares significativos). No nosso dia a dia convivemos com pessoas homofóbicas o tempo todo e engolimos muitos sapos em nome de uma conveniência que eu não sei se leva alguém a lugar algum. Interromper a piada machista do tio do pavê no almoço de domingo e confrontar o ataque que ela representa também é ser ativista. Chamar o coleguinha fanático pelo time de futebol e exigir que ele pare de usar xingamentos homofóbicos e machistas como “maria”, “chupa”, “gaylo” e demais variantes também é ser ativista. Não esconder seu relacionamento ou sua sexualidade dentro do ambiente de trabalho por “conveniência” também é ser ativista. Enfim, não engolir sapos é ser ativista.

Aceitação x Respeito.

Parafraseando a música que dá embalo à propagando da boticário: a gente vive junto mas não se dá bem, porque eles não desejam mal a quase ninguém. E esse quase somos nós.
Lembre-se: você não precisa da “aceitação” de ninguém porque não precisa pedir permissão para ser você mesmo. Não precisa abaixar a cabeça pra quem, de forma direta ou indireta, ajuda a cercear seus direitos. Não queremos aceitação, queremos respeito. E a campanha de boicote contra o comercial da Boticário veio em boa hora para nos lembrar que esse RESPEITO é uma coisa que estamos longe de obter.

E a gente vai à luta e conhece a dor, consideramos justa toda a forma de amor...


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sexta-feira, 29 de maio de 2015

Lavando louça suja.


Gabriela acordou com o som irritante do novo despertador. Segurou o Smartphone com a mão direita, o braço meio dormente formigando em protesto por ficar adormecido debaixo do peso do corpo, e começou a sacodir o telefone.

"_Esse aplicativo novo é ótimo, você vai ver. Não tem como não acordar!”

Maldito o momento em que Gabriela deixou Mariana instalar esse aplicativo infame no seu telefone. Além da preguiça e do mau humor, acrescenta-se agora a dor de braço ao seu despertar: que maravilha. Mas hoje ela não poderia, nem se conseguisse sacolejar o iPhone por tanto tempo, colocar a famosa soneca de cinco minutos (que se estende pela eternidade matinal) e voltar a dormir com o sabor especial que o sono de culpa tem nessas manhãs de quarta-feira. Não, hoje não. Hoje ela tinha de levantar e “dar um tapa na casa” antes de ir pra faculdade. Hoje Mariana vinha pra almoçar, pela primeira vez, em sua casa. E por mais que a vida desleixada de universitária permitisse à Gabriela acumular todas as suas tarefas domésticas por semanas, meses a fio, eram nesses momentos que Gabriela dava razão à implicância de sua mãe e sua mania de limpeza. O seu ninho de bagunça, sujeira, roupa embolada no chão do banheiro e manchas de cactchup na porta da geladeira iria receber a visita de um ser estranho a toda aquela baderna. Impossível deixar a casa um brinco, mas Gabriela tinha, pelo menos, de lavar a louça da cozinha.

“Lavar a louça” não descreve muito bem, na verdade, a missão a ela incumbida. As tarefas de Hércules pareceriam puzzle de revistinha infantil comparadas à gigantesca cordilheira de copos, montanha de pratos, enxurrada de talheres, serras de panelas e montes de tupperwares acumuladas dentro da pia (e algumas sobre o armário, não havia mais espaço debaixo da torneira.)

Gabriela arrastou as pantufas para o banheiro, escovou os dentes com a mão esquerda (o braço direito ainda dolorido de sacudir o iPhone) e fitou os olhos vermelhos de sono (culpa do netflix) no espelho. Depois se dirigiu à cozinha e encarou, meio atordoada, meio admirada, a labuta que a esperava. Reparou em especial em uma xícara de chá, isolada no cantinho direito do balcão. A matriarca, ou melhor, a primogênita dos seus irmãos talheres e pratos sujos.

Um mês e meio atrás, depois de lavar a cozinha e passar um pano na casa, Gabriela começou a dieta do chá verde. Saindo atrasada, e com fome, depois de um café da manhã magro que incluía meia maçã e uma xícara de chá, ela repousou essa mesma xícara de forma peculiar, naquele cantinho especial, e fez a nota mental: quando chegar eu lavo, antes de dormir.

Pausa para os risos do leitor.

No momento fatídico em que Gabriela encarou essa mesma xícara, semanas depois, no cantinho da bancada da pia, ela se questionou seriamente: “Será que parte de mim sabia que eu jamais iria lavar essa xícara naquele dia?” A resposta pairou no ar silencioso da manhã, quase sólida, batendo na cabeça oca de Gabriela.

Para afastar o peso aterrador dessa certeza, Gabriela arregaçou as mangas e se pôs a organizar a louça. Prato sobre prato, louça menor dentro da louça maior, economizando espaço. Se perguntou se Mariana faria o mesmo para lavar a louça. Provavelmente. Mariana era organizada, responsável, metódica e higiênica. Mas sem ser chata. Nada em Mariana era chato. Será que com a chegada iminente da mudança de Mariana pro seu apartamento Gabriela iria absorver os bons hábitos da parceira ou contaminar ela com sua preguiça infecciosa?

“Olha, um pote de Nutela mal rapado! Quase duas colheres inteiras do mais divino chocolate com avelã perdidas ali dentro! Que absurdo!” Jogou o pote em um cesto de lixo ainda mais abarrotado que a pia. Ele quicou em uma caixa de leite e caiu quase sem fazer ruídos sobre uma embalagem de miojo.

Será que os hábitos alimentares das duas não seriam um problema no casamento? Mariana era vegana, Gabriela não ficava uma semana sem um belo bife mal passado. Provavelmente não. Mariana era muito compreensiva e paciente com os outros. Nunca insistira para que ela também cortasse o sofrimento animal de seu cardápio. E Gabriela estava adorando experimentar as receitas veganas que vinha descobrindo na internet para cozinhar pra namorada. “Eu bem que poderia viver sem carne se hambúrguer não fosse tão bom... Tadinhos dos animais, né?” Parou logo de pensar muito sobre o assunto porque a fazia se sentir culpada.

A louça agora já organizada até permitia que Gabriela movesse um pouco os braços sob a torneira. Timidamente começou pelos talheres. Uma faca com fio cego, que Gabriela tinha prometido a si mesma levar para amolar meses atrás, foi mais uma alfinetada na sua falta de compromisso. “A Mariana jamais enrolaria tanto pra fazer algo tão simples.” O chaveiro que amola facas e alicates fica literalmente do lado da casa de Gabriela. Lavou, secou e guardou a faca na bolsa. “Quando sairmos passo lá e amolo”.

Olhou o relógio e percebeu que nunca conseguiria terminar a cozinha, tirar a bagunça visível do caminho e receber Mariana em um ambiente minimante agradável. Ia ser um desastre. Na primeira vez que ela entraria em sua casa, teria essa impressão desleixada... Quais poderiam ser as consequências, a curto e a longo prazo pro relacionamento? Jogou um moletom pra detrás da estante e bateu o cinzeiro no mini jardim da janela. Voltou correndo pra cozinha pra terminar a pia e já estava começando a acreditar que conseguiria deixar pelo menos essa parte limpa quando a campainha tocou.

"E agora? É o fim. Toda a minha irresponsabilidade, falta de compromisso, higiene e organização vão ficar evidente e ela não vai nem querer sair da sala de estar. Eu estou com a cara amarrotada, com o cabelo todo embolado, encharcada de água suja, as unhas um horror, atrasada pro almoço..." Uma olhada rápida no relógio enquanto pegava o chaveiro no prego da parede com a mão esquerda, com a direita segurando a esponja cheia de espuma. “Ei, na verdade não. Não são nem 11h ainda, o que aconteceu?”

Espiando pelo olho mágico Gabriela viu Mariana na porta de entrada. Linda, como sempre. Abriu a porta e já ia começar a formular um discurso desajeitado de desculpas quando Mariana adentrou como um furacão, falando afobada.

_Desculpa chegar mais cedo sem avisar! Mas é que meu celular está sem bateria, meu carregador quebrou semana passada e eu ainda não comprei outro porque estava usando o do Diego, mas ele viajou ontem e me deixou na mão! O seu iPhone é o 5 também né? E você pode me emprestar uma roupa? As minhas estão todas sujas porque há semanas que eu não coloco pra lavar! Eu presumi que tudo bem se eu tomasse banho aqui... Meu chuveiro também não está lá essas coisas, acho que uma parte da resistência queimou. Aí a gente sai um pouquinho mais cedo e passa no shopping do lado da facu pra eu comprar um novo. Carregador... Não chuveiro. O chuveiro ainda aguenta uns dias. Eu acho... Pode ser?

Mariana parou a fala de forma abrupta depois de jogar a mochila sobre o sofá. Reparou na ponta da faca que saia de dentro da bolsa de Gabriela e olhou direto nos olhos da namorada. Os olhos de Mariana... Aqueles olhos castanhos escuros emoldurados pela madeixa de cachos negros, cheios de vida. Gabriela olhava dentro desses olhos de forma atônita. Não conseguiu pensar em uma resposta condizente com tudo que sentia e disse automaticamente:

_Mas eu ainda não comecei...

E levantou as mãos molhadas com a esponja pingando espuma no chão da sala. Fazendo o melhor pedido de desculpas que conseguia com o rosto.

_Ah, então a gente come lá no shopping mesmo antes da aula. Passa no McDonalds, sei que você queria cozinhar pra mim, mas o Triple Cheese tá na promoção de 5 reais, vi ontem! Eu arranjo alguma coisa pra comer no...

Onde Mariana iria descolar um almoço vegano na praça de alimentação ficou por ser dito. Gabriela jogou a esponja no chão e pulou no pescoço da namorada para um beijo apaixonado.

_Que isso, amor? Tá ficando louca é? E por falar em loucura... Porque você está carregando uma faca de açougueiro na sua bolsa?

Gabriela deu uma gargalhada gostosa e com os braços cruzados sobre os ombros de Mariana respondeu.

_Ela está sem corte. Não importa.

Nada disso importava: um maravilhoso futuro com pias cheias de louça suja havia acabado de se descortinar a sua frente.
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sábado, 17 de janeiro de 2015

Mais empatia, por favor.




Imaginem a seguinte situação: alguém pisa em um prego enferrujado com os pés descalços e aquilo ali vai fundo até o osso do calcanhar. A pessoa, que é dotada de sistema nervoso, solta um grito agudo de intensa agonia. Nesse momento você vira e diz:

_Ai, para com isso. Nem tá doendo isso aí.

A pessoa olha incrédula e você continua:

_Olha, eu nunca pisei em um prego na minha vida. Nem mesmo tachinha ou alfinete. Mas daqui de onde eu estou olhando parece não doer nem um pouquinho. Então para de gritar que você está me incomodando. Obrigado.

Parece absurdo? Pois eu tenho visto isso acontecendo todos os dias, com uma frequência que tem me incomodado muito. Não, ninguém que eu conheça tem pisado em pregos enferrujados (e que continue assim), mas em analogia ao meu conto do desastre calcante eu tenho visto e ouvido uma acusação absurda recentemente: vitimismo.

Primeiro que essa porra dessa palavra nem existe. Não aparece no Houaiss, no Pliberam, no Aurélio nem em qualquer outro dicionário de língua portuguesa que eu tenha consultado. O que sugere que ela é uma criação recente. Criação de pessoas arrogantes, diga-se de passagem.

Quando um indivíduo relata um sentimento de dor, opressão, violência ou exclusão perante uma conjuntura qualquer existem apenas duas opções para quem presencia esse relato:

1.   Identificação: talvez você já tenha sofrido o mesmo, talvez você saiba exatamente do que se trata aquele desabafo, talvez isso doa mais em você ou, quem sabe, talvez depois de passar pela mesma situação tantas vezes você já esteja calejado e nem perceba mais. Se o caso é esse, só resta uma coisa a fazer: abraçar (mesmo que mentalmente) o coleguinha.



2.  Cala a boca e escuta: se você não faz ideia do que aquela pessoa está passando, nunca esteve em situação semelhante, não vem bancar o idiota e dizer que o prego enfiado no calcanhar não está doendo nadinha.


Se um gay diz pra você que é ele quem se sente ofendido quando você usa termos como “viado”, “baitola” e “boiola” para xingar seus amigos, não faça o papel de babaca dizendo que “é brincadeira”, que você não “teve a intenção” e que ele está “fazendo tempestade em copo d’água”. Porque GUESS WHAT? Você é gay? NÃO, então o prego não está no seu pé, querido.

Se um negro ou uma negra pede para que você para de usar a expressão “não sou suas nega” porque ela é racista e escrota ao último nível, não seja estúpido ao ponto de dizer que a pessoa está exagerando.

Se uma pessoa trans te diz que é ofensivo perguntar - “então você nasceu mulher e decidiu virar homem?” - tudo o que você deve fazer é ouvir, calar o biquinho, pedir desculpas e se policiar para não repetir um erro semelhante.

Resumindo: não cabe a você definir o que é ou não é ofensivo para os outros. Esta atitude é extremamente prepotente, arrogante e o pior de tudo: indiferente. E quando você ignora o desabafo daquele indivíduo – porque requer muita coragem na maioria das vezes para assumir a dor e dizer: “ei, você está me machucando dizendo/fazendo isto” – e continua a praticar a mesma ofensa repetidamente, é como se você olhasse para o prego encravado no pezinho do coleguinha e dissesse:

_ Vamos enfiar esse prego mais fundo um pouquinho? Eu já te disse que não dói. Viu? Não dói nadinha. Não importa que o prego está no seu pé e não no meu. Eu manjo muito de pregos...

Pessoas que fazem isso demonstram uma incapacidade quase patológica de se colocar no lugar do outro e manifestar um bocado de empatia. Sabe empatia? Sim, a qualidade que falta em pessoas APÁTICAS. Então, se você já agiu dessa forma é isso que está faltando em você: uma das qualidades humanas que nos distingue da maioria dos animais e nos torna capazes de sentimentos como amor, compaixão e afeto.

Então não seja um estúpido, babaca, ignorante e apático. Não há nenhum problema em cometer erros e eventualmente ofender as pessoas no dia a dia. Acontece, todos nós estamos susceptíveis a isso. O importante é usar um bocadinho nossos aparelhos auditivos para ouvir o outro, reconhecer, pedir desculpas e tentar não repetir. Isso mostra que você é uma pessoa MUITO LEGAL MESMO NOSSA DEIXA EU SER SEU AMIGO e adivinha? Na maioria das vezes, aquela pessoa que você ofendeu vai logo aceitar seu pedido de desculpas e vocês poderão se tornar grandes amigos para sempre caminhando pelo arco-íris montados em um unicórnio alvo em busca do pote de ouro.

Portanto, vamos riscar a palavra vitimismo do nosso vocabulário e parar de espalhar por aí asneira, desamor e pregos enferrujados nos calcanhares alheios. Obrigado.
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terça-feira, 1 de outubro de 2013

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Essa gente da manhã.


Tem gente caminhando na orla da lagoa, tem gente comprando pão fresquinho na padaria, tem gente tomando café da manhã com a família como nos comerciais de margarina (porque me recuso a viver em um mundo onde não há ninguém passando manteiga sintética na torrada em frente a uma enorme variedade de iguarias, sucos, frios e frutas pela manhã). Tem gente fazendo seções de exercícios com dez, onze, doze ou mais repetições na academia do quarteirão acima.
Tem gente tomando banho, tem gente vendo a Fátima Bernardes (eu acho), tem gente assistindo aula (eu deveria ser um desses), tem gente estendendo roupa no varal, tem gente fazendo gelatina, tem gente colocando em prática o projeto artístico de pintar o vazo de porcelana da estante, tem gente pegando ônibus, tem gente trabalhando, tem gente lendo Guimarães Rosa, tem gente com fome antes da hora do almoço e depois de tomar café, tem gente limpando o jardim, tem gente regando flores, tem gente cantando Marisa Monte na janela ao lado do meu quarto com o sol batendo fraco no rosto e o cabelo voando forte ao vento.
Tem gente fazendo a unha, tem gente levando o Arthur à escola, tem gente buscando o Arthur da escola, tem gente dando banho no Arthur antes do almoço. Tem gente pagando conta atrasada, tem gente tirando segunda via de documento com foto antiga, tem gente cancelando a assinatura daquela revista horrível, tem gente limpando a geladeira.
Tem gente sobrevivendo à vida, tem gente resolvendo a vida, tem gente vivendo.
Tem gente rindo na minha cara por eu não fazer nada além de dormir mais do que devia.
Tem gente, como eu, que não é gente da manhã. E lamenta isso.





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sexta-feira, 6 de setembro de 2013

A estaca zero depois dos créditos.



Quem nunca viveu aquela sensação de abobamento, um sentir-se atônito, ao terminar de ler um bom livro, ouvir um excelente álbum, prosear uma boa conversa ou assistir um excelente filme?
Na última quinta-feira eu vi um desses excelentes filmes: lindo, mas triste. Deve ser aquela história, aquela que diz: “pra se escrever um samba com beleza é preciso um bocado de tristeza”. O curioso desse filme é que ele é triste porque acaba. Só por isso.
Dois caras se conhecem em uma sexta-feira à noite, transam, ficam juntos na manhã de sábado, saem juntos no sábado à noite e no domingo à tarde um deles se muda para New York com volta marcada, caso haja volta, para dali a dois anos. Não é uma história de amor: eles já sabiam da separação iminente. É uma bela história sobre um belo momento. Aliás, o nome do filme é Weekend.
A expectativa de uma declaração de amor na estação de trem, no momento da despedida, seguida de aplausos vindos dos transeuntes (sempre solidários com as histórias de amor alheias nas películas hollywoodianas) não era grande. Fosse pelo fato de serem gays, e muito provavelmente haver chances de serem linchados pelo público, e não aclamados, ou simplesmente por se tratar de um filme belo demais, delicado demais, humano demais para terminar assim: tão clichê. O relevante é que nas cenas finais, no último segundo, no instante final, desejei que ficassem juntos. Eles funcionaram muito bem juntos, mesmo que só por 48 horas.
Ora, ninguém em sã consciência adiaria uma viagem de estudos em favor de um relacionamento fantasma com um completo desconhecido. E se, a partir daquele maravilhoso final de semana, essa relação utópica começasse a mostrar problemas irremediáveis? E se um término traumático, peripécia do destino, estivesse os esperando depois da curva do primeiro mês de namoro? Melhor não. Que se encerre aqui, enquanto estamos todos bem. Como a carreira de um astro do futebol que, se esperto e bem agenciado, se aposenta enquanto ainda está “por cima”, sob os holofotes.
O que me inquietou foi o depois. E como seguir com a vida? A vida das personagens e a minha também. Porque a vida não é como um filme, e relacionamentos não são como um caso apaixonado do final de semana, o sonho de uma noite de verão.
O filme acabou. A história das personagens também. No enredo da película ficou com um dos rapazes uma fita de gravações da primeira noite dos enamorados. Aqui no meu mundinho ficou na memória um eco de um filminho bacana que vi na noite de quinta-feira. A vontade era de emendar filminhos bacanas da noite de quinta até que fosse manhã de sexta, tarde de sábado, noite de domingo, madrugada de segunda... Fácil como se fosse possível viver um “relacionamento-pílula” no final de semana; todos os finais de semana. Só pra não ter que voltar para a melancolia do dia a dia, pra fugir da responsabilidade de ter que (sobre)viver a(à) própria rotina.
No final das contas fico achando que o que é mesmo triste no filme, assim como na história dos dois rapazes, não é o seu fim. É a estaca zero que aparece depois que sobem as letrinhas.
 
 
OBS: Esse texto não é recente e a “última quinta-feira”, mencionada no segundo parágrafo,  provavelmente se refere a uma quinta-feira que vivi quatro ou cinco meses atrás… Honestamente eu não me lembro. A vida, essa caixinha de surpresas, me impediu de publicá-lo na época pelos motivos mais inusitados possíveis. Uma vez que o reencontrei numa pasta obscura do meu desktop, decidi publicá-lo aqui, seguindo o conselho da minha amiga Zih, que me disse uma vez para criar um blog e transformá-lo em um depósito das asneiras que penejo.










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